terça-feira, 19 de maio de 2009

TRECHOS NUS

DANÇA DAS CADEIRAS

A música parou/acabou.
Sentaram-se a ostentação, a crueldade, a mágoa, o medo e a ilusão.
Não restou nenhuma cadeira para a poesia,
que continua dançando louca
e sem cadeira para repousar do atrevido espetáculo de dançar
sem música e sem vitória.


























CO - ra - ção
QUER u - ma
BO - ca pa
RA bei- jar
BO - ca quer
OU - tra vez
SEN -tir o
CO ra - ção
PUL -sar as-
SIM meu bem
VEM dor- mir
VEM mea- mar
SAI da - qui
NÂO que -ro
MAIS te ver
MEU deus ci
CA - tri -zar
E as - sim
OU tro lhar
NO - va - men
TE bei -jar
E as-sim -con
TI - nu - ar
A - té não
MAISSen - tir
AS per -nas
A bai -lar
CA - los nos
LÁ - bi - os
VÂO -ti - rar
GOS -tos dos
ROS -tos to-
DOS i- guais
CO - ra - ção
DES -can -sar
DE ou - tra
VE - lha val-
SA ve - lha
VAL -sa ve
LHA val -sa
VE - lha e
PON -to fi-
NAL.







ESTRANGEIRO

Pertencer é não.
Tudo é outro
nas subdivisões.
Perdoem-me por ser,
por respirar,
mas não saio da bolha
dos bons costumes:
sufocamento cultural.
I´m sorry.
Conhecer a mim mesmo
é fugir
e retornar
para sempre,
estrangeiro ao mundo,
estrangeiro de mim mesmo.
Me d i s s o l v o e m p a l a v r a s
distantes de qualquer país,
Mas perto de um vazio
de ser qualquer igual ou diferente.
Fui e não voltei nunca mais.






Criei trilhos e meu trem e uma ousadia que nunca partiu.
O mundo vem como ervas, que eu não arrancarei.
De repente, eu não consegui mais inventar a felicidade
O frasco das minhas expectativas apodreceu,
derramando minha libído tragicamente.
Antes eu tinha esse líquido,
inventado,
cultivado,
mas essa loucura evaporou-se.
Talvez, se eu fosse à Índia, ou ao Egito
ver as pirâmides.
Mas o acaso.
O estar nu, o não controlar minha tremedeira...
me seduz.
Tenho que criar outros chãos.

Eu pensei que o mundo fosse lugares.





O LAGO

A felicidade é um peixe.
Eu e meu pai fomos pescar, mas ventava muito
nesse mundo.

Ele voltou para casa. Sem peixe?
Eu voltei para casa. Sem ele?
Negativo.
Já tínhamos pescado o coração um do outro.







TRÊS FASES DO RELACIONAMENTO

Foi errado desde o começo.
Foi um começo meio estranho.
Foi um começo meio fim.





Eu abro tua porta em mim.
Você abre minha porta em ti.

ÉDEN












GANGORRA

Vai que eu te ajudo a me beijar o beijo teu que minha boca beija a tua que beija o beijo meu.



Sou o


NÁUFRAGO


numa ilha - meu coração.
Queria saber nadar até outra ilha,
mas vou me afogar,
numa garrafa de vinho.
O coração é mesmo uma ilha, Mateus.
Vou abrir meu cais.
Meus recursos são (ou estão) escassos.
Se tivesse chorado menos, haveria menos mar.
Fazer uma balsa - a máscara para me flutuar
até

o nada
e naufragar de novo... com estas...
palavras...
quando só tiver a balsa...
para procurar alguém.....
no mar.........
virtual.










ÉDIPO COM MEDO

Eu quero a minha mãe













Às 6 da tarde,
gladiadores em comunhão
na lotação.
Voltam para casa,
guerreiros do dia
entreolham-se cúmplices,
em reclamações caladas ou esbaforidas.
Olhos paqueradores,
um desvio, um sorriso,
celulares em fúria,
já to chegando,
passa comprar pão?
A lotação percorre, lenta ou rapidamente
os dois extremos deste poema,
Que cheira a trabalho,
aproximação
às coisas da vida,
essas coisas da tarde,
essas sacolas,
pacote de salgado,
presilha no cabelo,
maço de cigarro no bolso,
essas coisas da cidade,
essas fotos de um momento,
na lotação,
às 6 da tarde.






METÁFLORA

No meu jardim tem uma linda flor que está ali há muito tempo, e eu não tinha percebido.

Se eu arrancar a flor para te presentear, terá minha imprudência te apanhado do meu jardim?











FOTOS NO DESERTO

1 – Direções opostas.

2 – Carregando casaco.

3 – Voando até um oásis (quase afogando e com sede de confirmar que você foi só uma miragem).

4 – Tempestades noturnas na janela.

5 – Camelos ao sol(idão) ignorando a água de suas lágrimas.

6 – Seres inertes. Seu interior reserva água, mas os espinhos dificultam qualquer proximidade.
















Se eu não vou ao mar,
o mar vem até mim,
como vida fluindo que vem e que venha
e que mate minha sede sem fim.
E a água que bate nas pedras do meu cora ção que só bate assim:
Vem, me leva e me afo ga de impulsos e acasos,

me salva de mim.












AO REDOR DA FLOR

Um cuidado será tomado.
A flor não será tocada (ativamente).
A existência da flor não pode ser compreendida.
A flor foi levantada do chão.
A flor está contida no que é conhecido como inconsciente coletivo, essa câmara delicada onde a flor é depositada, conservada, intocada (sempre passivamente).

A flor foi esperada, é estudada, será lembrada.
E eu que pensava que palavras não pudessem ser produzidas pela essência: a boca da flor.
Sim, a flor também foi dotada do dom de cantar.
A flor é circundada pelos pensamentos.
A flor é pensada pelo nariz e pelos olhos (pensar na flor seria violência indescritível).
A flor é protegida pelos parêntesis (do pensar na flor).

Olho a flor.

(NÂÂÂÂO!!!)
A flor foi esquecida. A flor foi pisada pelos pés de um verbo transitivo.

Logo eu que sou tão quieto.
Logo eu que não faria mal a uma mosca.
Logo eu cuja vida tem sido vivida tão passivamente.

Permaneço imóvel e sou engolido pela flor.
Sou hiptonizado, enganado pela flor.
Minha passividade é triturada, ou melhor, a existência da flor tritura minha passividade.
Só resta deixar-me levar pela flor
em sua indiferença,
em seu sorriso dissimulado,
em seus simples e atrevido existir (a beleza é sempre superior).

Entre eu e a flor há uma ponte inútil por onde passa o desejo (meu demônio, que está indo embora).

SUSTO:
A flor sou eu.











Um certificado (não sei se do pessimismo):


Entender que o rio vai sendo chuva caindo na horizontal continuando para sempremente, apesar dos guarda-chuvas tentando enroscar-se nas beiradas nas margens - marginal poesia, apesar da tempestade deitada inevitável insuperável que vem sendo o rio o tempo o verbo acontecer.











A MENTE

Cresce, maldito coração puro de 18 anos,
que não sai de arranque, de força própria.

Corre, menino semi-pronto, na obrigatória corrida dos corpos: o mundo, a vida, os trilhos.

Brilha, luz tímida, carente, medrosa.

Beija, boca, de uma vez, para transmitir logo o gosto do amor com pressa,
extinguindo os cansaços do dia.

Olha, agora, o que você acabou de escrever (ler) moleque ou menina estranho(a) e necessitado(a) de espelhos perdidos no ler e escrever o mundo.

Pula, corpo, da cama, na primeira manhã de crescer, correr, brilhar, beijar, escre-ler (espelhos?) pela primeira vez, aos 18 anos, eterna
mente.












TOLOLIRISMO DE AMOR

Quando eu nasci, todos os sinos do mundo quiseram soar,
mas não puderam,
pois em todas as igrejas com ou sem sinos,
todos estavam ocupados fazendo amor naquele momento.

Minha mãe me olhou, não só pensou e disse:
É com esta espada que ele irá pelo caminho
colhendo os amores um a um
nas altas árvores de possibilidades.

Não que eu seja um Eros.

O amor é que é grande
e dele eu transbordo, baby.

Quem mergulhar em mim jamais esquecerá
do choque térmico
arrepios de troca
de calor frio
esses dois lábios
de quem sou.










Não, não se apaixone na cidade grande,
lugar onde se fala inglês.
Don’t fall in love, quando o amor não há,
não caia no não: terra não natal da paixão medrosa temida magoada fugidia
de óculos escuros na cidade onde não há a cidade nem o não,
só o buraco onde se cai em vão.
(adultos tristes discutindo seu Present Imperfect na madrugada)
Não caia no amor, quando na cidade não há a cidade,
só o vão, nem o amor onde se cai no buraco
onde não se cai
no amor
que está no interior (não no exterior),
que está no interior (dentro e fora do campo da pele),
que está no interior (não na capital
do Estado
de calamidade dos sentimentos).

2 comentários:

  1. "De repente, eu não consegui mais inventar a felicidade"

    sei como é isso =]

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  2. quanto ao último só tenho uma coisa a dizer:
    é desmoronar.

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